O concurso reuniu propostas de diferentes equipes em torno de uma diretriz comum: a renaturalização do córrego do Bixiga como estrutura do futuro parque, articulando adaptação climática, recuperação ambiental e qualificação do espaço público.
A equipe vencedora fará o desenvolvimento das etapas seguintes dos projetos de arquitetura, urbanismo e paisagismo, com valor de contratação de R$1.281.388.
Promovido pela Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, e organizado pelo IABsp, o concurso terá o resultado final homologado em 17 de maio de 2026.
Saiba mais sobre os projetos vencedores e os pareceres da comissão julgadora no site oficial do concurso.
concursoparquedobixiga.org.br
A cerimônia de premiação, realizada na segunda-feira, 4 de maio, foi também um momento de celebração pública dessa nova etapa na longa luta pela criação do Parque Municipal do Bixiga. O encontro reuniu moradores, arquitetos, representantes do poder público e integrantes do conselho gestor do parque em uma manhã marcada por apresentações artísticas, música, intervenções e discursos emocionados sobre a trajetória de defesa da área verde.
Entre os destaques da cerimônia esteve a exibição de um vídeo do Teatro Oficina com registros históricos da mobilização pelo parque, reforçando a dimensão simbólica e coletiva do momento.
Os discursos realizados por representantes do conselho gestor, do IABsp e da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente podem ser acessados ao final deste texto, como registro desse processo histórico. Além de ajudarem a contextualizar o concurso e a trajetória de reivindicação do parque, as falas apontam questões importantes para as próximas etapas do projeto, como a necessidade de garantir que a implantação do parque não produza processos de expulsão e valorização excludente do território.
A cerimônia também foi registrada em vídeo e está disponível no YouTube.
Confira a classificação:
1º Lugar – Proposta 215
Responsável Técnico – Autor do Projeto
Antonio Roberto Zanolla – Arquiteto e Urbanista, Geógrafo
Equipe
Democratic Architects
Coautores
Andre Enrico Cassettari Zanolla – Arquiteto e Urbanista / Paisagista
Bianca de Lira Silva – Arquiteta e Urbanista / Paisagista
Colaboradores
Gabriel Melo Zambroni – Designer
Alexandre Prado de Mello Silva – Designer
Consultores
Vinícius Fröner Lacerda – Engenheiro Ambiental Hidrologista (responsável técnico)
Fábio Cunha Lofrano – Engenheiro Hidráulico (consultor técnico)
2º Lugar – Proposta 208
Responsável Técnico – Autor do Projeto
Marcello Lindgren – Arquiteto e Urbanista
Equipe
Arquitetura Lindgren
Coautores
Walmur de Moura – Arquiteto Urbanista
Afrânio Ribeiro – Arquiteto Urbanista
Consultores
Mariana Siqueira – Arquitetura Paisagística
Maria Eduarda Veiga – Soluções Baseadas na Natureza
Lucas Martins – Engenharia Hidráulica
Bernardo Diniz – Cálculo em Estruturas Metálicas
Diego Costa – Visualização 3d
3º Lugar – Proposta 239
Responsável Técnico – Autor do Projeto
Duarte Vaz Guedes e Silva – Arquiteto, Urbanista e Paisagista
Equipe
Embyá paisagismo, urbanismo e arquitetura LTDA
Coautores
Elena Geppetti – Arquiteta Paisagista
Victor Huggo Fernandes – Arquiteto e Urbanista
Larissa Scheuer – Arquiteta e Urbanista
Rafaela Lessa – Arquiteta e Urbanista
Isadora Riker – Arquiteta e Urbanista
Miguel Ajuz – Arquiteto e Urbanista
Bruno Kraemer – Arquiteto e Urbanista
Marcos Blanco de Amorim – Arquiteto e Urbanista
Eliana Rosa de Queiroz Barbosa – Arquiteta e Urbanista
Carila Spengler Matzenbacher – Arquiteta e Urbanista
Vincius Mattos – Arquiteto e Urbanista
Beatriz Habermann – Arquiteta e Urbanista
Ilan Rzetelna – estudante de arquitetura e urbanismo
Consultores
Gabriela Calça Evaristo – Engenheira civil e ambiental
Charles Rodrigo Belmonte Maffra – Engenheiro florestal
Pablo Pinar Alvez Pinto – Consultor de agrofloresta
4º Lugar – Proposta 214
Responsável Técnico – Autor do Projeto
Manoel Belisario Bezerra Viana – Arquiteto e Urbanista
Equipe
Manoel Belisario Arquitetura + Lamary Arquitetos Associados
Coautor
Rafael Lamary Silva Santos – Arquiteto e Urbanista
Consultores
Marcos Alexey da Rocha Woelz- Arquiteto Paisagista
Marcos Malamut – Arquiteto Paisagista
Lucas Matheus Oliveira de Queiroz – Engenheiro Civil / Hidráulico
5º Lugar – Proposta 236
Responsável Técnico – Autor do Projeto
Mario Figueroa – Arquiteto e Urbanista
Equipe
Figueroa Arquitetos Associados Ltda.
Coautores
Carol Moreira – Arquiteta e Urbanista
Daniel Maioli – Arquiteto e Urbanista
Glória Cabral – Arquiteta e Urbanista (2a. fase)
Gustavo Bondezan – Arquiteto e Urbanista
Pedro Paes – Arquiteto e Urbanista
Colaboradores Fase 1
Bruno Caldas – Arquiteto e Urbanista
Augusto DiLascio – Arquiteto e Urbanista
Giovanna Fontenla – Estagiária
Bárbara Hernández – Estagiária
Colaboradores Fase 2
Giovanna Fontenla – Estagiária
Myllena Victor – Estagiária
Consultores
Elisiana Kleins – Arquiteta e Urbanista (Infraestrutura Verde)
Erica Bernabé – Arquiteta e Urbanista (Revisão de Textos)
Felipe Damasio – Arquiteto Paisagista
Renan Lopes – Engenheiro Hidráulico
Menção Honrosa – Proposta 221
Responsável Técnico – Autor do Projeto
Vinicius da Costa Lopes – Arquiteto e Urbanista
Equipe
Consoante Anonima
Coautores
Ana Beatriz Kamitsuji Pala – Arquiteta Paisagista
Bruno Futema – Arquiteto e Urbanista
Juliana Trama – Arquiteta e Urbanista
Luísa Martins – Arquiteta e Urbanista
Victor Tonissi de Toledo Piza – Arquiteto e Urbanista
Victoria Reis Sousa e Braga – Arquiteta e Urbanista
Colaboradores
Camila Miwa Arai – Arquiteta e Urbanista
Livia Naomi Nishijima Yohei – Arquiteta e Urbanista
Luisa Caminha de Figueiredo – Arquiteta e Urbanista
Daniel de Souza Carvalho – Estagiário de arquitetura
Gabriel Techeresk – Estagiário de arquitetura
Michele Bucci – Estagiário de arquitetura
Enrico Martines Salvador Paula – Biólogo em formação
Thais dos Santos Coelho – Arquiteta, Urbanista e Ilustrador
Consultores
Leonardo Mello Affonso Lemos Tannous – Engenheiro Ambiental e Hidráulico
Paula Regina Balabram – Engenheira Civil e Hidráulica
Fabio Condado Barbosa – Consultor de Estrutura e Fundação
Menção Honrosa – Proposta 246
Responsável Técnico – Autor do Projeto
Lua Nitsche – Arquiteta e Urbanista
Equipe
TON Projetos Urbanos
Coautores
Raphael Chiste Brandão Antunes de Souza – Arquiteto e Urbanista
Carolina Leonelli – Arquiteta e Urbanista, paisagista
Gabriela Tie Nagoya Tamari
Colaboradores
Marília Peceguini
Thiago Victor Conti
Fabio Dias Mendes
Pedro Henrique Alonso de Camargo Penalva Rodrigues
Vitória Cruz
Arthur Pedrosa
Aline Naomi
João Nitsche
Julia Machado
Consultores
Roberto Bayeux Namy – Engenheiro Hidráulico
Guilherme Garcia – Engenheiro Hidráulico
Miguel Maratá – Consultor de Estrutura e Fundação
PRONUNCIAMENTOS NO CERIMONIAL
Danielle Santana, presidente do IABsp
Quando o IAB foi fundado, há 105 anos, a defesa dos concursos públicos de arquitetura já orientava seu posicionamento. Naquele momento partimos do entendimento de que a construção da cidade não se faz apenas com dados técnicos e desenhos precisos, mas também com escuta, diálogo e posicionamento crítico e político.
Um concurso não começa no momento do julgamento. Ele começa antes. Começa na construção de suas bases, na definição de um processo justo, anônimo e democrático. E afirma algo fundamental: que a inovação também nasce da possibilidade de imaginar outros mundos possíveis e de traduzi-los por meio do desenho, ofício de excelencia das pessoas arquitetas. Os concursos são, portanto, oportunidades de posicionamento coletivo.
São momentos em que explicitamos qual agenda estamos construindo e que papel queremos assumir enquanto instituição e enquanto sociedade. Mas também nos colocam diante de um desafio: como construir espaços de diálogo que façam sentido hoje?
Para este momento, três palavras parecem fundamentais: sonho, luta e diálogo. O sonho de um espaço público qualificado. O sonho da renaturalização do córrego em tamanho, rio em força do Bixiga. O sonho dos que vieram antes e dos que seguem sonhando agora. Foi esse sonho que mobilizou pessoas, que organizou esforços, e que sustentou a luta para que este território tão simbólico tivesse a destinação pública que lhe cabe.
Mas a luta não se dá apenas no confronto direto. Ela exige escuta ativa e exige disposição para o diálogo. Um diálogo que acontece na convergência, mas também nas discordâncias, nas conversas difíceis. E foram justamente esses diálogos que construíram o percurso até aqui. Foi neles que soluções foram sendo delineadas, com a participação do poder público, da sociedade civil organizada e, na etapa do concurso, do IAB.
Por isso, gostaria de registrar alguns agradecimentos. À Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, por assumir o desafio de propor este concurso, e à sua equipe técnica, pela condução comprometida ao longo de todo o processo. Ao movimento Parque do Bixiga, pela construção coletiva das bases do concurso, pelo acolhimento da nossa posição institucional, e também pelas tensões, pelos questionamentos e pelas contribuições que deram densidade a este percurso. E às demais secretarias envolvidas, pela atuação nas diferentes frentes, pela participação no Grupo Técnico de Trabalho e pela elaboração das diretrizes que orientaram este projeto.
Que o sonho, a luta e o diálogo permaneçam como força motriz deste parque.
Um marco importante: o primeiro na cidade de São Paulo concebido a partir de um concurso público de projetos, e o primeiro no país a estabelecer como diretriz a renaturalização de um corpo d’água, após séculos de negação dos rios urbanos.
Cabe agora dar continuidade a esse processo. Seguir sonhando, seguir lutando, seguir dialogando.
Para que este parque abra caminho para novos enfrentamentos e novas conquistas. E para que outras demandas urgentes da população, como moradia, permanência dos habitantes e preservação do patrimônio, também avancem a partir de processos coletivos, consistentes e comprometidos com o interesse público.
Marília Piraju, vice-presidente do Teatro Oficina
Com Oxum de frente Oxalá no coração Oxossi atrás e Oxum no movimento avançamos como um RIO! com estas palavras Zé Celso cantava as orientações que fundamentam o teatro oficina e já intuía a presença das águas como nossas aliadas em todos estes anos de batalha.
É da maior importância marcar que, se hoje, chegamos à apoteose deste movimento histórico, é por causa de uma luta extraordinária e coletiva da sociedade civil, e sobretudo da cultura, do teatro e de um território: o Bixiga, que se movimenta politicamente através da cultura.
Zé Celso Martinez Corrêa, diretor e fundador do Teatro Oficina, junto com a arquiteta Lina Bo Bardi, convocaram, a 45 anos atrás, a vocação pública deste chão, e sua força de reparação histórica, ancestral, ambiental e econômica. Zé nos ensina que o teatro, a cultura carrega uma força de ação, de sedução erótica, de transformação e poder, que não devíamos menos à ambição das multinacionais, das máquinas do capital financeiro e do consumo, que reconfiguram territórios com seus impactos, cruzam continentes e formatam violentamente culturas inteiras, pelo contrário, justamente a cultura precisa re-ocupar a sua posição concorrente, respondendo sempre ao massacre com imaginação desmedida, contagiando as correntes humanas a retomar a trajetória em direção à criação, ao outro, à terra, ao que importa: a vida.
E é exatamente essa grandeza que o Tea(ro Oficina, o bairro do Bixiga e todas as alianças desta luta imprimiram, comunicando a atuação corajosa e a tarefa fundamental que a cultura carrega, como termômetro, antídoto e ponto de virada dos acontecimentos sociais, políticos, urbanos, ambientais e planetários.
É a chance do Bixiga ter uma horta-escola pública, coletiva, capaz de gerar segurança alimentar para o bairro. É a oportunidade única das crianças terem o direito de brincar entre árvores, com um rio a céu aberto. É a chance de São Paulo se posicionar com um projeto piloto no enfrentamento das emergências climáticas, em um laboratórios de criação na floresta urbana restaurada, com o pomar, o viveiro de plantas e a horta Denúzia. A ciência do cultivo da terra, a natureza na prática. E esta nova natureza será irresistível para as aves, para os bixos, que voltarão a povoar, a polinizar, a tornar mais fecunda esta terra tornada deserta, pela ignorância e estupidez, uma revolução ecológica como cantava Zé Celso.
A marca na genealogia desta luta sempre foi a de um jogo de poderes perversamente assimétricos, de um lado a especulação imobiliária gananciosa e aparelhada, que só enxergava terras improdutivas e vazio a ser especulado neste terreno, e de outro, o território, que desde 2002, é reconhecido pelo poder público como patrimônio histórico, arquitetônico, arqueológico e artístico – o bairro do Bixiga – centro magnético, quilombo e viveiro da cultura popular, e justamente por isso, criminalizado por insistir com coragem em ousar viver sua ancestralidade preta, nordestina, festiva, coletiva, bem no meio da capital do capital.
A ruptura com a fronteira messiânica entre sociedade civil e representantes públicos, se mostrou como contribuição e direção fundamental dessa luta. Pegar a vida nas mãos, de preferência coletivamente, pra reinterpretar o direito imobiliário, as noções de patrimônio público, os modos de produção e os sentidos de justiça, sempre foi prática determinante pras conquistas nesses 45 anos de conflito. O Teat(r)o Oficina e o Bixiga desde as primeiras batalhas sempre se colocaram como sujeitos da própria defesa, quem deu aberturas a todos os processos nos órgão de patrimônio, nos ministérios públicos, nunca esperamos uma proteção tutelar ou reconhecimento do estado pra nos percebermos como patrimônio cultural que precisava garantir sua continuidade.
E como parte também dessa tecnologia de luta: tornar o assunto público, sair das decisões personalizadas e dos acordos privados de gabinete: desde o 1° ato público desta luta: o Domingo no Parque (1980), passando pelas incontáveis presenças em coro em encontros com representantes públicos, audiências públicas, cortejos, atos encenados, sempre comunicando o interesse público do movimento, em um esforço de produção de narrativa oposta à maior parte da imprensa, que insistia no argumento midiático da personificação da luta entre Silvio Santos e Zé Celso, e consequentemente reduzindo a amplitude do conflito à opinião polarizada de simpatizantes e haters, apagando a importância ecológica e potência coletiva desta batalha.
Essa desproporção no jogo de forças também existiu e ainda existe de maneira brutal no acesso aos meios de comunicação, como o conglomerado midiático que o grupo Silvio Santos teve ao seu dispor, e sempre produziam uma narrativa que argumentava que monumentos imobiliários excludentes, racistas e de impacto econômico e ambiental violentos, trariam oportunidades de empregos, e isso foi uma estratégia perversa que muitas vezes nos desmobilizou e dividiu. A biografia do bairro do Bixiga até hoje é marcada pela presença de um canteiro de obras permanente que o mercado imobiliário e muitas vezes a administração pública impõe compulsoriamente sobre os moradores, e carrega uma história perversa de apagamento, como a construção devastadora do Minhocão, do elevado 14 Bis e mais recentemente, da linha de metrô sobre a sede da escola de samba do Vai Vai, que sistematicamente foram varrendo os moradores pras periferias, em um movimento de despossessão e remoção forçada daqueles que criaram o valor material e imaterial deste território.
É preciso muita coragem, dedicação e convicção da sociedade pra sustentar mais de quatro décadas de um desafio permanente de luta, de reinventar argumentos, magnetizar alianças, pra topar entrar neste campo de batalha tão desproporcional entre artistas, sociedade, instituições e coletivos culturais do bairro empobrecido e popular do Bixiga e a máquina descomunal e aparelhada do mercado imobiliário especulativo. Romper a inércia da população diante do paternalismo da gestão pública exige força e fôlego, e a arte foi e tem sido aliada na formação de cordões dentro e fora do bairro do Bixiga como ferramenta contra a sua descaracterização e extinção permanente.
Celebramos Zé Celso que nos ofertou essa perspectiva de que a cultura é arma poderosa na luta pela vida na terra. Apesar da tragédia incorrigível que fomos acometidos na morte de Zé, que não pode viver de corpo presente este dia de hoje, seguimos com entusiasmo esta luta, que definitivamente, não se encerra aqui!
E justamente pra que ela não seja capturada, esta luta ainda nos exigirá muita coragem e fôlego redobrado. E aproveitando as presenças de tantas alianças, gerações que lutaram por dentro esta luta, de representante da administração pública e o time que será anunciado hoje como vencedor, propomos uma pactuação.
Pra nós, esta cerimônia só será uma celebração na medida que a administração pública entenda sensivelmente e aceite que a natureza deste parque é estar na contramão de uma prática predominante que constroi cidade à partir do extermínio de culturas e saberes ancestrais. Portanto não faz sentidos, e é inegociável pra nós, que a implantação de uma benfeitoria no coração de São Paulo aconteça simultaneamente à destruição de dois teatros: Vento Forte e Container, a ameaça de destruição de um terceiro, o Bibi Ferreira, despejo de um patrimônio do samba brasileiro, o Samba do Cruz, de despejo de uma das casas e pontos de cultura mais expressivos e importantes do Bixiga, a Casa do Mestre Ananias, e ainda mais brutal, a gigante e quase centenária Vai-Vai estar ainda expropriada e sem previsão de sede.
A implantação deste projeto vencedor só será legítimo, se estiver comprometido com a não privatização, embranquecimento ou elitização futura deste território, e com a garantia da permanência da população PRETA, NORDESTINA, dos TEATROS, dos ARTISTAS, IMIGRANTES e REFUGIADOS, e de toda a gente que contribuiu e contribui para criar o patrimônio cultural, arquitetônico, ecológico, arqueológico e humano do Bixiga!
A história do Teatro Oficina, do bairro do Bixiga como a da terra desde a colonização é a história de um movimento de libertação. Desse movimento nunca esperamos a resolução, fomos ao encontro dela. A vida e o futuro deste território continuará nas mãos do Bixiga.
AÇÃO!
Solange Sant’Ana, membro do Conselho Gestor do Parque Bixiga
O anúncio do projeto vencedor do Concurso Público para o Parque do Rio Bixiga é uma grande vitória da nossa luta contra a especulação desta terra de 11 mil metros quadrados no Bairro Bixiga.
Nossa luta foi iniciada na década de 1980, por José Celso Martinez Corrêa e o Teatro Oficina, e ao longo dos anos agregou diferentes alianças que estão presentes aqui hoje para celebrar essa vitória.
E como representante dessa luta, pelo Conselho Gestor do Parque e moradora deste território há 65 anos, manifesto nossa grande preocupação com o anúncio do projeto vencedor. Pois nós sabemos que o anúncio é suficiente para impulsionar a gentrificação e a expulsão da população negra, quilombola, nordestina, migrante, imigrante e artista do Bixiga.
Sabemos que sem a regulamentação imediata do Território de Interesse da Cultura e da Paisagem – TICP Bixiga, esse parque sonhado e praticado por nós, pode representar uma expulsão da população preta, devido ao aumento do custo de vida, venda de imóveis de uso popular e dificuldade de acesso a programas habitacionais, mesmo aqueles considerados de caráter social, devido a prevista valorização imobiliária.
Portanto, hoje convocamos a Prefeitura de São Paulo e suas Secretarias a iniciar o processo de reordenamento do território à luz do artigo 314 do Plano Diretor, revisado em 2023, de forma participativa e inclusiva por meio metodologias ativas que considerem a realidade local e formas de ser e viver da comunidade do Bixiga. Incluindo mecanismo de justiça climática que garantam a permanência da atual população negra do Bixiga no seu território.
A regulamentação do TICP pode contribuir para a inclusão socioeconômica e habitacional de grande parcela da população negra que será impactada pela especulação imobiliária e mudanças dos usos.
O Parque do Rio Bixiga existe e resiste muito antes desse concurso, ao longo dos últimos vinte anos muitas pessoas praticaram neste terreno uma vida urbana livre de especulação, compartilhando saberes e alegrias de diversas formas.
Nós do Conselho Gestor do Parque do Rio Bixiga, reforçamos que este projeto deverá respeitar, fortalecer e ampliar conceitos, políticas e atividades praticadas nesse terreno ao longo dos anos em que se estende essa luta.
O Parque do Rio Bixiga não pode ser um produto para ser consumido na cidade.
Nós vemos essa luta como uma grande oportunidade para criarmos uma aliança metodológica, entre a Prefeitura de São Paulo, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, o IAB, o Conselho Gestor e os movimentos sociais, par construção de práticas de gestão participativas deste território.
De modo que esses modelos de habitar, cultivar, trabalhar e gerir este espaço público, possam ser implementados por processos verdadeiramente participativos, incluindo a comunidade local, representada pelo seu Conselho Gestor e os movimentos sociais, em todas as etapas de implementação, desde a Fase Preliminar do Concurso, até o projeto executivo, participando ativamente como sujeitos dessa luta. Por isso, é essencial que o vencedor do concurso se apresente ao Conselho Gestor para juntos criarmos o planejamento das atividades participativas das etapas que correspondem ao projeto. Para que a comunidade que lutou por esse parque seja atora nas tomadas de decisões das metodologias a serem aplicadas, por exemplo, para prospecção arqueológica, para infraestrutura de drenagem, para os plantios e manejo da vegetação.
Reforçamos que o Parque do Rio Bixiga é em si, parte da desta política de permanência da população negra e Quilombola do nosso Território.
Leandro Fontana, vice-presidente do IABsp e membro da comissão organizadora do concurso
É com grande satisfação que celebramos hoje a conclusão de uma etapa histórica para a cidade de São Paulo: o Concurso Público Nacional de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo para o Parque Municipal do Bixiga.
Este concurso representa a materialização de uma demanda histórica da sociedade civil, fruto de anos de mobilização, articulação comunitária e defesa de uma visão de cidade que reconhece a inseparabilidade entre memória, meio ambiente, cultura e espaço público.
A realização deste certame reafirma o compromisso da Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, com a adoção do concurso público como instrumento qualificado, democrático e transparente para a contratação de projetos de excelência para a cidade.
É importante destacar que este concurso não começou com a publicação do edital.
Sua construção foi antecedida por uma extensa etapa preparatória de diálogo com a SVMA e posterior formulação programática e amadurecimento técnico, que envolveu oficinas participativas, diálogo com o Conselho Gestor do Parque e articulação intersetorial entre diferentes órgãos da administração pública. Foram 03 oficinas participativas organizadas pelo IABsp e 02 oficinas organizadas pelo Conselho Gestor do parque, garantindo a escuta ativa dos agentes do território. Um agradecimento especial a Ana Beatriz Geovani e Flávia Burcatovsky do Estúdio Aberto, que coordenaram com primor as oficinas participativas. À Paula Nishida e Nina Neves, pelo suporte na construção das bases do concurso. Cumprimento também a Raquel Shenkman pela participação na construção dessa parceria com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. A Danielle Dias, pela liderança potente frente à nova gestão do IABsp e o constante acompanhamento deste certame. À Camila Reis, que não pode estar conosco hoje, pela dedicação na coordenação do Concurso junto a mim. E igualmente a Isabela Armentano, Ingrid Bisterzo e André Lisboa pela dedicação e constante trabalho junto à comissão promotora do concurso.
Esse processo preparatório foi fundamental para consolidar um programa robusto, sensível às demandas locais e comprometido com os múltiplos significados deste território singular para a cidade de São Paulo.
O desafio proposto às equipes participantes foi complexo e instigante: projetar um parque urbano em uma área de enorme relevância histórica, cultural e ambiental, adotando como diretriz estruturante a renaturalização e reabertura do Córrego do Bixiga, reintegrando o curso d’água à paisagem e à experiência cotidiana da cidade.
Ao todo foram 82 equipes inscritas no concurso e 64 propostas entregues para avaliação do júri. Entre os 05 finalistas, representantes dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Ceará demonstram o alcance do concurso a nível nacional e o interesse de arquitetos em projetar mais espaços livres para as cidades.
Gostaríamos de registrar nosso reconhecimento a todas as equipes participantes, pela dedicação e seriedade demonstradas ao longo de todo o processo.
Cumprimentamos também a Comissão Julgadora, que desempenhou com rigor técnico e profundo comprometimento a responsabilidade de avaliar propostas de altíssimo nível, contribuindo decisivamente para a legitimidade e excelência deste certame. Foram dezenas de projetos avaliados em 02 fases e muitos momentos de encontros e debates. Ciça Gorski, Catherine Otondo, Marília de Oliveira, Raul Pereira e Vinícius Andrade, obrigado.
A equipe vencedora desta manhã não recebe apenas um prêmio: recebe também a responsabilidade de desenvolver as próximas etapas do projeto — revisão do estudo preliminar, anteprojeto, projeto básico e projeto executivo — por meio de contratação prevista no próprio edital do concurso. Lembrando que a homologação do concurso está prevista para 17 de maio de 2026.
Que este concurso se consolide como referência de boa prática pública e como exemplo de que processos participativos, planejamento qualificado e concursos de projeto são caminhos fundamentais para a construção de cidades mais justas, resilientes e democráticas.